Itararé, Cidade de Artistas - O Rock Aqui é Rota Sul

Itararé, Cidade de Artistas - O Rock Aqui é Rota Sul
Só os imbecis são felizes (Silas Correa Leite, in, Provocações, TV Cultura)

DECLAMAR POEMAS - Silas Correa Leite de Santa Itararé das Artes


Declamar Poemas

Não gosto de decorar poemas
Prefiro falar poemas com um livro na mão
O livro é meu instrumento musical.
(Solivan Brugnara)

Para Regina Benitez

Não fui feito para declamar poemas
Ter timbre, empostar a voz, tempo cênico
E ainda dar tom gutural em tristices letrais.

Não fui feito para decorar poemas
Malemal os crio e os pincho fora
Pro poema saber mesmo quem é que manda.

Não fui feito para teatralizar poemas
Mal os entalho e deixo que singrem
Horizontes nunca dantes naves/gados.

Não fui feito para perolizar poemas
Borboletas são pastos de pássaros
Assim os poemas que se caibam crusoés.

Não fui feito para ser dono de poemas
Eles que se toquem e se materializem
Peles de pedras permitem leituras lacrimais.

Não fui feito nem para fazer poemas
Por isso nem cheira e nem freud a olaria
Apenas uso estoque de presenças jugulares.

Não fui feito eu mesmo. Sou poema
Bípele, cervejólo, bebemoro noiteadeiros
Quando ovulo sou fio-terra em alma nau.
-0-
Silas Correa Leite, Itararé-SP
E-mail: poesilas@terra.com.br

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poemas de Silas Correa Leite




Poemas de Silas Correa Leite



Poemas de Outono

P E R G U N T A M E N T O S

“Tenho de dar de comer ao Poema – Murilo Mendes

01)-Miseris Nobilis

volta e meia paira sobre mim
o medo da miséria e da fome
da minha infância humilde

então trabalho e estudo e escrevo
feito um condenado à vida
que só na loucura santa de sobreviver criando
encontra a sua espécie de cura

meus versos são pães dormindo
uma realidade substituta




02)-Teatro de Ocupação

Cansei de existir
Mas estudo, trabalho, luto para não
Repetir
A dose.
Morrer é passar de ano?

Luto para não me ferir
Mais do que me fere a existência
De ser
Um homem.
Viver é reparar dano?

Existo para inquirir
O nojo, o horror da vida, a cruz
Do medo
Da fome.
Escrever é baixar o pano?





03)-Violões

Invejo quem toca violão
Violão é o céu plangente
Na ponta dos dedos, na palma da mão
Como um corpo de mulher estridente
Em que você pratica a levitação
E gera música, harmonia, gente
Orquestrando a alma-nau da afinação.


04)-UTOPIA



detesto silêncio quando estou existindo

quando foi mesmo que existi?

detesto barulho quando estou escrevendo

que lugar me fujo no criar?

detesto existir quando escrevo poemas

que lugar me sou a fazer versos?

sou nada e tudo - qualquer parte

ESCREVENDO PARA FUGIR DE ME SER









05)-Guerra & Paz




Trabalho numa biblioteca pública
De vez em quando os personagens
Dos clássicos vêm conversar comigo



É nessas horas que me enlivro.




06)-Labore



Tentei esquecer

Tudo o que a vida me fez sofrer

Mas como eu escreveria

Poesia


Sem o laboratório de me ser?



07)-Oito Quedas



hoje eu acordei

meio foz do iguaçu

ouvindo blues

desaguando poemas



O buraco das Sete Quedas é mais embaixo







08)-Laranja




botaram o ceguinho pra vender laranjas

no farol da Paulista com a Consolação



o pobre vendeu todas as frutazinhas

mas não viu nenhum tostão









09)-Furta-Cor



A

Solidão

Me

Protege






10)-Autoridade Civil




E SE A POLICIA TAMBÉM FOSSE PRESA UM DIA


POR DESACATO AO EXERCICIO DE CIDADANIA?




















11)-O Papagaio e a Pia

gota a gota a torneira pinga e chia

na pia da cozinha

o papagaio da casa vizinha

olha escuta aprende e espia


quando finalmente consertaram a pia

o papagaio já decora

e pia como uma pia marmórea

na sua entoação sonora


pior do que uma pia alada

seria uma torneira

pois fica chato na casa fechada

um papagaio imitando

uma gota vazada


12)-NEOLIBERALISMO (Cínico Estado Mínimo)

não há vagas

não há vagas

não há vagas

(Aceitamos Escravos)




13)-Mariposa




a mariposa suicida



na lâmpada apagada



espera amanhecer a noite




14)-Genuflexório






Minha mãe


Tirava lágrimas


Dos joelhos















15)-Xerox Quebrada




tenho tantas histórias pra contar


tenho tantas histórias pra contar


tenho tantas histórias pra contar





16)-IDIOTAS



Precisamos de idiotas

Para arredondar

A idéia da banalidade

Bipolar


E ainda há gente vulgar

Que acredita em genialidade


A morte é o atestado jugular

De nossa finita imbecilidade



Dá pra acreditar?




17)-Poema do Cego Pulando Amarelinha

O cego pulando amarelinha
Toma o anjo pela mão
Você só vê o gesto táctil do cego não
Vê jamais o anjo na sua condução
Em cada estágio de saltar sem pisar na linha.

O cego pulando amarelinha
Parece flutuar num balé
E sonda-o a rua de Itararé inteirinha
Perguntando o que nele enseja tanta fé
Céu e inferno; o cego parece que advinha...

O cego e a sua amarelinha
Parece um milagre até
Toma-o pela mão o anjo; o cego se aninha
E pula e salta e vence e acerta o pé
Talvez porque céu ou inferno só dentro da gente é.





18)-Pirilâmpado

“Ninguém pode pensar, sentir ou agir
Senão a partir da própria alienação...”
R. D. Laing

Se quero sobreviver preciso esquecer que meu corpo é uma carcaça.
Uso as palavras para recompor minha vida exangue.
Tento compreender o absurdo da existencialização.
Prezo a morte e leio escombros na angústia-vívere.
Tenho em mim a decadência-preço de Existir.
Não fui aparelhado espiritualmente para suportar a vida.
Minha infância pobre é o mundo que trago às costas como uma lesma com carcova.
Sou um renunciante à vida que respira a tristeza no caos.
Amo os silêncios porque deles tiro filés de santas palavras.
Caibo em despertencimentos, desabandonos e desespelhos com a consciência saturada.
Minha palavra é a minha voz como o estertor de um vagido.
Existir dói e faço doer os engenhos e açudes das palavras.
Uso as esporas das palavras em verso e prosa para refazer a vida que me deram como uma sentença-castigo.
Se eu escrever ansiedades perdoem o inexato corte de pelica da dor em mim lavrada.
Não tenho fórmulas para escapar ileso e não estou impune.
Sou um bebedor e comedor de verbos feito um Pirilâmpado.
Dou ciência de mim aos efêmeros insensíveis como potes de vísceras.
Não me leiam se não querem se assustar de serem a si mesmos revelados como carcaças em espelhos turvos.
Sou por acaso aqui e ali uma espécie de rebrilux. Os gemidos de noiteadeiro falam por mim, me descrevem.
Palavras me são remédios. Correm no meu sangue. Regurgito.
Como se adubos de palavras em ordinárias bateias de granizo.
Sou inventariante de angústias humanas, escondo-me em bibliotecas
E bebo de lanhos de meu próprio sangue letral
Envenenando-me da dura e triste carcaça Sobrevivencial.












19)-Tintas (Água, Sal e Muro)



Um índio pode deixar suas terras muito além das montanhas e florestas
Passar por divisas, armadilhas - entrar em grandes metrópoles urbanas tristes
Mas, ainda dentro de um shopping, no meio de uma praça pública ou túnel
Um índio será sempre um índio

(Tenho sangue índio, negro e judeu em mim)

Um negro pode ter deixado a sua aldeia numa distante savana da África-Mãe
Passar por moendas, engenhos, bandas de blues ou resistências espirituais
Mas, ainda dentro de uma catedral, no meio de anjonautas ou solitário
Um negro será sempre um negro

(Tenho sangue índio, negro e judeu em mim)

Um judeu pode deixar sua sinagoga, suas tribos, seu cântico do talmude
Passar por diásporas, derramas, cálices, trevas, êxodos ou inquisições
Mas, ainda que esteja cordeiro tosquiado no vale da sombra da morte
Um judeu será sempre um judeu

(Tenho sangue índio, negro e judeu em mim)

............................................................................

Sou a mistura de horizontes, fermentos; salmos e renascimentos alados
Sou água, sal, muro das lamentações, ancouradouros e flores de jasmim
O que mais sou numa aquarela de mistura quando escrevo todas as tintas de mim?
Sou a dor do índio vitimado
Sou a cor do negro escravizado
Sou o horror do judeu exilado
Sou lágrima, arado, pensagem, querubim
Sou todos os seres humanos numa palheta misturado
Sou a raça humana - a espécie que erra
Sou o bom cabrito que no poetar berra
E sou, ainda, a minha própria terra
Eu mesmo um Brasil indecifrável lá dentro de mim








20-My Way



My Way


Um dia você acorda e olha pra trás
E diz: eu não era nada.
E vê toda vida que fez do seu jeito
E pergunta: terá valido a pena?
Você acha que venceu na vida
Mas sabe: o que restou de você?
Talvez muito pouco ou quase nada
Daquilo: uma criança pura.

Um dia você cai em si e teme
O resultado: o que fizeram de você
A luta a dor, as amarguras e
Seqüelas: terá sido uma vitória?
Dentro do seu coração os sonhos
E as escuridões: são os poemas
Que você escreve porque tem medo
De se matar: morrer depois de tudo?
..............................................................
Um dia você não quer olhar pra trás
E nem pra você: foge para a poesia.

(Na escrita há um tempo irreal
Uma ilhota íntima: você em você!)

-0-

Silas Correa Leite
Santa Itararé das Letras
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

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